A compreensão de Hegel do mecanismo que está baseado no processo histórico é mais profunda que a de Marx. Para Hegel, o primeiro motor da história humana não é a ciência natural moderna ou o horizonte constantemente em expansão do desejo que a potencializa, mas um impulso totalmente não econômico: “A luta pelo reconhecimento pessoal”. Francis Fukuyama
Estamos em 1984, a professora Walquiria Leda de Albuquerque é nomeado pelo governador João Durval Carneiro, político na época ligado a ACM, superintendente da Universidade do Sudoeste. Momento difícil, transição de Autarquia, reconhecimento dos cursos, implantação de outros. Sua posse foi violentamente contestada. Parecia que a UESB entrara no pior dos abismos. Não havia legitimidade para o exercício do cargo, segundo os contestadores, pois a mesma não fora eleita pela comunidade acadêmica. Utilizou-se para sua indicação, apenas a vontade pessoal do deputado Estadual Leônidas Cardoso. Faltava respeito à autonomia Universitária. Um deputado não pode fazer nenhum tipo de ingerência política na comunidade acadêmica que é a vanguarda da democracia. A professora Walquiria transformou-se numa usurpadora por ter sido nomeada por um deputado Estadual.
Sua posse foi extremamente tumultuada. Funcionários revoltados, professores indignados, pois eles eram os defensores da legitimidade. Agrediam com palavras de ordem, onde parecia não existir pessoa humana, somente indivíduos. Os princípios eram válidos, pois os princípios são obrigatórios porque eles são a liberdade. Era a fenomenologia da consciência política. Dentro destes conceitos não cabia a consciência passiva e especulativa. Como diz Louis Althusser, filósofo marxista: "Agora se descobre que não há vida sem surpresa e que ela não só faz da vida, mas a surpresa é a própria vida em sua verdade última".
Os degraus da escada até o auditório não terminavam para aquela comitiva de governo, foi uma caminhada longa. Estavam embaixo, na época, os professores da UESB, defensores da democracia, gritando “ladrões, ladrões, ladrões...”, “Universidade autônoma”, “abaixo nomeação”, “o povo unido... jamais será vencido”. O professor Waldenor, liderava a claque, a sua voz sobressaia com sua jugular exaltada com todo o repúdio que para ele representava aqueles destruidores da educação. Político na educação é intolerável, propagava numa fé sensibilizadora.
Estamos em 1995, o professor Waldenor revelou-se uma atuante liderança política na Universidade. Conseguiu na Administração anterior o cargo de Pro - Reitor Administrativo e Financeiro. Agora ele havia ganho legitimamente em eleição, o cargo de Reitor, embora observe que a diferença de votos não foi muito expressiva, até mesmo se considerarmos que ele já representava o poder e disputava a eleição no exercício de um cargo. Mas tudo bem, foi eleito. É o Reitor na visão da comunidade acadêmica e de fato. Restava ser homologado em lista sêxtupla pelo governador, como pede a Lei. A sua origem político – partidária do PT, inspirava receios de que o governador não acatasse o resultado da eleição da UESB. Aí a história entra com toda a ironia para os que decidem traçar sua trajetória de vida sem avaliar com profundidade a intolerância e em muitos casos até mesmo a crueldade. Estas foram as práticas na época contra as pessoas que assumiram cargos indicados pelo deputado nomeador de plantão. Coisificavam as pessoas, trucidavam as dignidades nas lutas pelos princípios e hoje esqueceram de fazer uma investigação de retorno às origens. Serviria pelo menos para reencontrar a verdadeira fase das causas objetivas das suas lutas. As pessoas se insultavam, se batiam, mas no interior do mundo que permanece, no essencial, um mundo de palavras e oportunidades. Tudo que falavam em defesa de uma sociedade cai por terra na busca pelo poder pessoal. Souberam usar admiravelmente os amigos que os apoiava na época, mas não os respeitaram. De repente não se sabe se a proposta era de um marxismo vulgar, porém, fornecendo uma exposição não mais contraditória, mas coerente e inteligível, na certeza de que o objetivo fora alcançado. Restava apenas restituir as exigências de coerência a uma desastrosa e impraticável ortodoxia de vantagens.
A peregrinação do professor em gabinetes de prefeitos, deputados, chefes políticos, vereadores, para conseguir o apoio para sua nomeação, tirou a legitimidade da eleição. Não havia mais autonomia universitária, tão intolerantemente reivindicada no passado. O nome do jogo agora era assumir o poder de gerir o orçamento da UESB de qualquer forma. É a nova palavra de ordem.
É fascinante a capacidade que o poder tem para transformar as pessoas. Em essência não havia diferença entre a posse do professor Waldenor e da professora Walquiria. Ambos foram nomeados por politicos. A legitimidade conferida nas urnas foi retirada desta comunidade no momento que sua vontade soberana do voto foi resolvida diplomaticamente em convescotes e reluzentes gabinetes onde habitam a atmosfera do poder e a esperteza da lógica, tão contestada por ele no passado.
E como foi pomposa e solene a posse! Até mesmo com direito aos paroquiais e barulhentos fogos de artifícios quando se anuncia os nomes que se pretende promover. É o culto do eu. A mesa composta de vários deputados governistas, Secretários de Estado, Prefeitos de vários municípios, ex-senadores, parecia mais o início de um campeonato de futebol, em que cada político presente queria mostrar que houve sua contribuição para o evento. Banda de música, flores, etc. Não faltou nem mesmo a torcida organizada. Justiça se faça, tinha a presença de outros Reitores das Universidades do Estado. Faltavam professores e educadores de projeção estadual, lamentavelmente não estavam presentes. Não tínhamos sequer um intelectual reconhecido no Estado. Faltava um Edvaldo Boaventura, ex – secretário que promoveu a famigerada nomeação de 84 e hoje um reconhecido educador e intelectual até mesmo nas hostes esquerdistas. Mas, em compensação, sobrava político. E sobrava muita pompa. Jamais imaginei que assistiria uma posse tão concorrida quanto esta. Tinha tudo para ser uma convenção partidária em aliança. Líderes marxistas ideologicamente fundamentalistas, políticos coerentes e carrancudos do passado, estavam presentes comungando da mesma satisfação que os “heróis” promotores de 64 e que hoje emprestavam seu prestígio para nomeação do Reitor. E todos no mesmo banquete da vida, só que no meio da refeição perdia-se o apetite.
O que nos resta desde aprendizado é a certeza de que o próximo Reitor terá que percorrer os mesmos gabinetes que o professor Waldenor. A vitória não foi da instituição, não foi da democracia, não foi da autonomia universitária, não foi de princípios, foi apenas pessoal. Portanto é bom não esquecer o endereço dos gabinetes para a sucessão. Poderíamos até sugerir a dispensa de eleição, bastando indicar o sucessor entre os mais ambiciosos, mais aguerridos, mais negociadores. Este será o perfil dos próximos Reitores. É triste constatar que não existem oportunidades para Educadores.
“Diga-se agora que um príncipe deve ter o cuidado de não se aliar com um mais poderoso, senão quando for impelido pela necessidade, ficará preso do aliado; e os príncipes devem evitar a todo custo estar à mercê de outro” (Maquiavel). No encerramento da solenidade, quando o Secretário de Educação do Estado, tomou o microfone extemporaneamente, para encerrar a solenidade após a fala do Reitor, simbolizou a demonstração de que existia o exercício do poder e da submissão.
Sahid Suffi